Anceriz - " O Solar Beirão" na Serra do Açor     
 
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Via Romana Secundária

Por Anceriz passava uma via romana secundária que ligava a cidade romana, cujo verdadeiro nome ainda se ignora e que hoje se chama Bobadela, à cidade de Conimbriga, pela margem esquerda do Rio Alva, passando por Avô, cimo de Vila Cova, Coja, Arganil... Ainda restam vestígios desta via, na calçada ao cimo de Avô. Na década de 1960 ainda existiam vestígios desta calçada, na descida do caminho, onde está a capela de Nossa Senhora de ao Pá da Cruz. Infelizmente, essa calçada desapareceu e nos terrenos vizinhos ainda se encontram grandes pedras de granito que faziam parte dessa via.

 

Documentos

A primeira referência histórica, de que temos conhecimento, é a doação do castelo de Coja à Sé de Coimbra, feita no mês de Novembro de 1122, nos seguintes termos:"... quomodo dividitur cum violo Avolo per illam aquam de Anceriz usque...". Em 1206, no Livro das Kalendas da Sé de Coimbra, aparece a seguinte frase: " per reditus quintane de Auxarix es in termino de Avoo..." Segundo o Cadastro da População do Reino, feito por ordem de Dom João III, no ano de 1527, "...os termos da vila de Avô, eram: Anceriz, Casal do Piodam, Casal do Chãos d´Égua, Sorgaçosa, Foz de Moura, Casarias e casal do Colquorinho...". Os moradores de Anceriz já nessa época eram de 255, mais do que hoje. O seu nome aparece igualmente na doação da vila de Avô a D. Urraca Afonso, em Janeiro de 1185. O historiador Padre Cardoso diz que " Anceriz é um lugar que fica na Província da Beira, bispado em Coimbra, arcediago de Seia, comarca da Guarda, termo da vila de Avô, que donde lhe pagam jugadas e foros, porém as justiças são postas por El-Rei. Fazem parte desta Freguesia os lugares seguintes: Santo Ildefonso, Carvalhas, Espinhal, Ribeira das Casas e Vale de Freixo."

 

O CRUZEIRO DO FERREIRO
No cruzamento do antigo caminho Anceriz-Corgas-Pomares (hoje estrada) existe um cruzeiro, que tem na base ferramentas de ferreiro.
Este local e cruzeiro têm a sua história:
João Victor da Silva Brandão, nasceu a 1 de Março de 1825, no Casal da Senhora e foi baptizado na Igreja de Midões. Casou em 1863 com D.Ana Eugénia de Jesus Correia Nobre.
Envolvido em lutas eleitorais, julgado e condenado em Tábua a 3 de Junho de 1869, por um crime infamante, que foi o assassinato do Padre Portugal. Em 1870 foi desterrado para Angola, onde morreu em Setembro de 1880.
João Nunes ( o Ferreiro da Várzea ) era natural da aldeia do Casal dos Povos da Moura, freguesia de Avô. O seu pai, António Nunes, era ferreiro. Os seus quatro filhos foram ferreiros. O João, filho mais velho, veio a casar em Várzea de Candosa, perto da Percelada, concelho de Tábua. A sua divisa era: "Morrer ou matar João Brandão."

Em Pomares, havia um amigo de João Brandão, que era o Dr. António Pinto de Abreu Ferreira, que vivia onde foi mais tarde a casa do saudoso Aníbal Campos.
Na noite de 4 para 5 de Novembro de 1854, o destacamento de Infantaria 14, estava em Midões e era composto por 30 praças e mais de 200 bandoleiros armados, sob o comando de João Brandão. Atravessaram o rio Alva . As serras do Açor estavam cobertas de homens armados, para matarem o Ferreiro.
No dia 6 de Novembro, desse ano, era a feira de Lourosa, mas o Ferreiro não apareceu. Partiu em direcção ao Casal de São João , Luadas, Ribeira de Parroselos, Mata da Margaraça, Pardieiros e Benfeita, acompanhado pelo irmão Miguel, para depois seguir para a Covilhã e Espanha. Aqui vivia o sapateiro António Quaresma, que era seu conhecido. O Ferreiro, nesta viagem , ainda recebeu uns tiros na Catraia da Fonte de Espinho.
Na noite de 9 de Novembro de 1854, à meia noite, José de Brito e José de Matos entraram no palheiro e mataram o Ferreiro e prenderam o irmão. Depois apareceu João Brandão. Trazia uma bolsa com 29 pintos em prata e uma libra em ouro. Como estava na jurisdição de Arganil, teve receio e pediu ao irmão Miguel para levar o Ferreiro para junto da Cruz de Anceriz, que pertencia ao julgado de Avô. Foram até ao lugar de Adeclarigo ou Declarigo( Anceriz). João Brandão seguiu para Pomares, levando preso o Miguel. O corpo do Ferreiro, depois foi trazido para a Capela de Santo António de Anceriz, onde se fez o exame do cadáver, representando o Ministério Público o regedor de Anceriz, José Maria da Rocha, com o perito Dr. José da Costa Mesquita e o barbeiro José Pinto.
Dia 10 de Novembro de 1854, ao amanhecer. Para proceder a exame do corpo de delito, no cadáver que diz ser do João Nunes, casado ferreiro, natural do lugar da Percelada e morador na Várzea de Candosa, por o terem achado morto com ferimentos no tronco, no sítio de Adeclarigo( ou Declarigo).na freguesia de Anceriz.
O João Brandão é condenado e o Povo da Beira, quando ele foi desterrado para Moçâmedes, Angola, a 9 de Outubro de 1870, cantava:
" Já lá vais para o degredo,
Adeus, ó João Brandão!
A morte daquele padre
Foi a tua perdição! "
Nota: Estas informações foram tiradas do livro JOÃO BRANDÃO, de autoria de J.M. Dias Ferrão, Bacharel formado pela Universidade de Coimbra - 1928.
Em memória à morte do Ferreiro, mais tarde mandaram fazer no local um cruzeiro, que chegou aos nossos dias. Baseado neste acontecimento nasceu uma lenda em Anceriz : " A cabeça do Ferreiro ", que em breve transcreveremos.

 

O CRUZEIRO
( Entre Pomares e Anceriz)

Subíamos descansadamente o valle: era à tarde.O sol havia-se escondido por entre umas nuvens densas; e no ar pairava uma tristeza indiscriptível. As aves, saltitando de ramo em ramo, apenas faziam, ouvir a espaços, dolentes e lugubres pios, como se chorassem a morte d´algum ente querido. Em baixo, ao fundo, a ribeira engrossada pelas chuvas dos dias antecedentes, despenhava-se raivosa e espumante por entre fraguedos intermináveis, como que pretendendo fugir aquelles bosques de trágicas recordações, para ir abraçar num amplexo de carinho, o Alva, que mansamente beijava os pés à pátria do cantor de Viriato.


Ao longe descortinavam-se atravez d´umas nuvens esfarrapadas, as ondulações esbranquiçadas dos Hermínios, cuja alvura se afigurava, ao meu taciturno espírito, um enorme lençol amortalhando um gigante. Como tudo era triste! A própria natureza vestia-se naquelle dia de crepes., talvez para commemorar o aniversário d´alguma das horripilantes tragédias a que o solo da Beira tem servido de theatro.
Enquanto subíamos, vergados sob o peso da melancolia provocada por tão grande tristeza, um dos meus companheiros de passeio narrava-me uma série ilimitada d´acontecimentos, tristes como o aspecto d´aquelle dia, e horríveis como o hirsuto cume do Caramulo, que lá ao longe erguia para os céos os seus penhascos lamilliformes e frios, semelhando as espadas nuas d´um esquadrão infernal...
- "Finalmente, me disse elle, vamos chegar ao logar onde até hoje, se praticou o mais deshumano e tetrico de todos esses crimes".
- " Alguma mãe indefesa, morta na presença dos filhos que abraçados aos andrajos da desgraçada suplicavam, banhados em lágrimas, aos scelerados algozes que concedessem a vida aquella que os acompanhava, interroguei eu; ou algum mendigo que atravessando, alta noite, estes solitários caminhos, sem guarida, só, por serras inhospitas, fosse surprehendido pelo bacamarte traiçoeiro do salteador?!"
Não. Mais do que isso, me disse secamente o meu cicerone, cahindo numa abstracção profunda, numa angústia indiscriptível, como se lhe pezasse sobre o seu bom coração uma mole immensa.
Respeitei com profundo silêncio a dôr do meu amigo, um dos poucos que, num solo banhado pelo sangue d´innocentes victimas, ainda se condoiam das desventuras alheias.
Por fim o meu companheiro interrompeu o religioso silêncio que havíamos guardado, fazendo-me parar, e dizendo:
- "Foi acolá, sobre o tronco nodoso e carcomido d´aquelle secular castanheiro..."
A voz embargou-se-lhe na garganta e não poude continuar tão trágica narração. Ficou por momentos naquella posição, que tinha qualquer coisa de terrível. Com os olhos coruscantes, o braço estendido num movimento de repulsão, parecia lançar sobre a humanidade, que impavida e serena tinha assistido a tão grande crime, um anathema horrível e eterno.
- "Foi acolá, continuou elle, que uma horda de vis e cobardes assassinos crivaram com dezenas de balas o corpo d'um desgraçado a quem haviam dado caça. Mataram-n´o na aldeia a que um immortal escriptor chamou de SANTA CECÍLIA e de lá o conduziram para aqui, afim de lhe fazerem solemnes exequias. Como um alvo, foi collocado sobre o tronco do fatal castanheiro o corpo massacrado e frio d´aquelle infeliz, e à porfia - como é triste contal-o - começaram d´alvejar aquelle pedaço disforme de carne humana., As balas partiam velozes e certeiras das largas bocas dos bacamartes, e o estampido sonoro cohoava pelas quebradas dos valles d´um modo solemne e lugubre, como que tendo qualquer coisa de...divino. Parecia que a própria natureza se revoltava contra tamanho attentado!!!..."
Algumas horas depois as aves aterradas sahiam cautelosamente dos seus reconditos esconderijos, e o valle ficava deserto. Pendendo do tronco do velho e enorme castanheiro, os membros desconjunctados e o corpo crivado de balas, ficava a triste victima de tão cruéis algozes. Nesse mesmo dia alguns aldeões caridosos lhe deram sepultura; e ali em baixo, em Pomares, existe um pobre velho, que ao chegar junto do corpo para o sepultar, ainda lhe tirou, com uma curta estaca, uma bala que estava à flôr do corpo.
Mais tarde, dizem que alguem vinha abraçar-se ao tronco do velho castanheiro e que, como o noivo que permanece horas abraçado ao cadaver d´aquella que ia fazer a sua felicidade, ali ficava horas esquecidas, mergulhado em ternas recordações.
Como é triste! Como é vergonhoso serem beirões os auctores de tão deshumana tragédia!!!
Triste e pensativo, fiquei como que interrogando o regato, que entaçava os calhaus amarellos e polidos nun abraço de namorado, acerca da verdade de toda esta triste história.
Respondeu-me a monotonia e frieza do cruzeiro, que a dois passos se erguia. Sem as lellezas que o cinzel do artista imprime, elle ali estava, só, triste, attestando o passado.
Era formado por duas toscas pedras de granito, já musgosas, mas em pé, como que de mãos levantadas, pedindo à Providência um balsamo para a alma d´aquelle infeliz.

J. Cardoso

NOTA:
Este recorte foi tirado da "Comarca de Arganil" da edição de 5 de Abril de 1906.
Ficamos, assim a saber que ANSERIZ era chamada "SANTA CECÍLIA" por um escritor, cujo nome ignoramos. Provavelmente era pelo facto desta freguesia ter muitos e excelentes músicos, pois, Santa Cecília é a Padroeira da Músicos.
Segunda o testemunho deste artigo, o Ferreiro da Várzea, teria sido morto na Declarigo, em território de Anseriz e aqui sepultado, o que contradiz a versão do artigo anterior, cujo livro donde foi tirado foi escrito muito mais tarde. Segundo a nossa interpretação, este último testemunho parece-nos mais digno, pois parece ser um testemunho de pessoa que assistiu ao assassinato do Ferreiro.

Comentário ao "Cruzeiro de Anseriz":
No dia 6 de Maio de 2003, recebemos a seguinte mensagem electrónica do Senhor Ramiro Dias Antunes, referente à morte do Ferreiro da Várzea:
" Na Nota Final do artigo "O Cruzeiro" é afirmado:" ficamos a saber que Anseriz foi chamada Santa Cecília por um escritor, cujo nome ignoramos. "
Não sei se o escritor era SIMÕES DIAS, no entanto, seja quem for, ele estava a referir-se à povoação da BENFEITA, onde o referido FERREIRO foi morto e que tem por orago Santa Cecília."
Resposta: Caro amigo, bem-haja pelo seu comentário. Estamos de acordo com a sua interpretação, já que o Ferreiro foi morto na Freguesia da Benfeita e nessa mesma noite foi levado para a Cruz de Pomares-Anseriz. Quanto ao escritor de que se fala no artigo, creio também tratar-se do nosso ilustre professor, deputado, jornalista, escritor e poeta JOSÉ SIMÕES DIAS, natural da Benfeita e que veio a falecer em Lisboa a 3 de Março de 1899, com 55 anos. Apesar da sua curta vida, teve um percurso literário muito rico e variado.

Manuel S. Fernandes