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    História - Capela de São Pedro  

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Vista Panorâmica de Avô
 


Vista Panorâmica de Anseriz
 

A Capela de São Pedro "entre as vinhas", como outrora era conhecida, situa-se nos limites das Freguesias de Avô e de Anseriz, se bem que juridicamente pertença à vila de Avô.

Sempre o bom povo de Anseriz lhe dedicou especial devoção, pois este lugar de culto, dedicado ao primeiro dos Apóstolos, tornou-se uma ermida da região, ao longo dos séculos. Pensa-se que a sua fundação date da metade do século XIV, por ocasiâo da peste negra, que assolou toda a Europa e que dizimou milhares de pessoas.
Para que os habitantes destas freguesias e da região conheçam melhor a história deste santuário beirão e também, porque acreditamos no futuro turístico deste belo e saudável planalto, sobranceiro ao rio Alva e miradouro do Colcurinho e da Serra da Estrela, aqui deixamos um pouco da vida e da história desta velhinha capela de São Pedro.
Os apontamentos apresentados foram tirados da história da Capela de São Pedro, feita na década de 1940 pelo Rev. Padre António Nogueira Gonçalves, natural da Sorgaçosa, da vizinha freguesia de Pomares e já falecido e de recortes de jornais regionais, de autoria de M.S.Fonseca e do Prof.Jerónimo Sanches Pinto, assim como de testemunhos recolhidos.

Segundo o Padre António Nogueira Gonçalves, " A capela de São Pedro é muito pequena, de pouca altura e grande simplicidade, de uns catorze metros de comprimento. Tem uma só nave e correspondente ábside quadrangular, a que nos últimos anos do século passado (século XIX) ou primeiros deste, juntaram, em continuação de seus muros, uma sacristia, que deu à construção aquela forma desgraciosa de dois corpos iguais.

Na fachada, olhando o poente, abre-se a porta de um só arco em ogiva. A seus lados há duas frestas pequenitas, a desigual altura do solo, tapadas interiormente.

A meio da parede norte está outra porta , com a verga em semicírculo, e tão exígua que só tem 1,70 de altura.
No topo da nave, ladrilhada de largas pedras de granito e de tecto singelamente apainelado e muito baixo, abre-se o arco triunfal, semicircular, bastante largo e com pilastras curtas, pintado actualmente a vermelho.
No altar muito pobre, simples tábuas aplainadas e cobertas grosseiramente de tinta que está a cair, a imagem de São Pedro do século XV, da estatuária medieval coimbrã, estatuária de que tenho encontrado exemplares interessantes.



São Pedro, Séc XV


É o humilde apóstolo, descalço como na iconografia medieval se representavam os apóstolos, segurando lassamente o evangeliário e a chave, de barba encaracolada e cabelo fazendo coroa.
Outrora houve mais dois altares na capela, provavelmente um de cada lado do arco do cruzeiro. Fala neles o termo da visita da igreja de Avô no ano de 1744, em que se mandavam retirar."

No livro de Visitas, fl. 73 v.° - Arquivo da Irmandade do SS.mo de Avô, pode ler-se : " O m.°R.° Parroco no termo de quinze dias fará demolir os Altares que estam na dita cappela, de Santo Ildefonso e de N.Snr.a da Piedade vt.° não estarem ornadoz, nem haver q.m os orne ; e a imagem de Santo Ildefonso fará collocar no Altar do Glorioso São Pedro.

Santo Ildefonso já se não encontra na Capela. Procurei-o inutilmente por Avô e pela vizinha Anseriz, e todos a quem me dirigi desconheciam tal imagem. Em 1775 ainda ali se mantinha, porque na visita desse ano, em virtude de estado da capela, eram mandados retirar os santos para a igreja paroquial. Desapareceu porventura quando do maior abandono daquela."

No que diz respeito a Santo Ildefonso, hoje podemos informar o seguinte :
Na década de 1960, o Pároco de Anseriz, Rev. Padre Januário, de saudosa memória, ao reparar e pintar o Altar-Mor da igreja de Anseriz e ao fazer a limpeza das traseiras do mesmo altar, encontrou uma imagem sem cabeça. Depois, encontrou a um canto uma cabeça, que veio a verificar pertencer à mesma imagem. Fez a devida colagem e depois de averiguações soube que se tratava da imagem de Santo Ildefonso. Como era um Santo de muita devoção nesta Freguesia e, segundo se consta chegou a existir uma capela, pois foram encontrados vestígio no lugar de Santo Ildefonso, a imagem foi colocada na sacristia da Igreja de Anseriz, onde ainda se encontra. Lembramos que Santo Ildefonso foi arcebispo de Toledo, de 657 a 667. Participou em dois Concílios e foi teólogo, orador, poeta e escritor muito apreciado na Península Ibérica.O que é certo, é que este lugar ficou sempre conhecido por quinta de Santo Ildefonso e segundo o relato do livro dos óbitos da Freguesia de Anseriz do ano de 1903, Assento N°1, lê-se :
" Aos dois de Fevereiro do ano de 1903, às 5h. da tarde faleceu Josephina Augusta, de 5 anos, filha de António Castanheira, de Anseriz e de Maria Augusta, de Abrunhosa, Mangualde, residentes na Quinta de Santo Ildefonso ". No mesmo ano faleceu o pai, António Castanheira. Deviam ter sido os últimos habitantes deste lugar, que pertencia a Anseriz. É, pois, muito natural, que quando a capela desapareceu no lugar de Santo Ildefonso, a imagem tivesse sido levada para a ermida de São Pedro, que fica na mesma encosta e depois ao ter que ser retirada desta capela, os habitantes de Anseriz a recuperassem ou a escondessem. A actual Junta de Freguesia, em 2001, enriqueceu a toponímia da freguesia, com o "Caminho de Santo Ildefonso" no cimo da povoação.




Santo Ildefonso, Séc XV


A Senhora da Piedade não seria mais que alguma gravura e por isso o visitador não faz a seu respeito recomendação nenhuma.

Iluminando o Altar, há do lado da Epístola uma pequena fresta horizontal, a única que agora, depois do tapamento interior das de poente, ilumina a capela ; mas abertas as portas, a luz e ar lavado da serra inundam-na. Pois, se ela é tâo pequenina !

Ainda do mesmo lado do Altar abre-se a porta para a sacristia, que, como a outra que faz a comunicação desta com o exterior, foi feita à imitação da lateral da nave, e para cuja abertura desmancharam quase metade da parede do fundo da ábside.

Quando da construção daquela dependência, altearam todo o corpo da capela, cerca de meio metro, o que nitidamente se conhece pela diversidade de silharia.

As paredes de granito só exteriormente são revestidas de silhares em fiadas horizontais irregulares.

A ornamentação é nula. Somente as arestas das portas e arco triunfal são chanfradas, sendo os chanfros no arco cruzeiro côncavos. As impostas deste e da porta poente têm simples molduras.

Não há um florido capitel, cachorros ornados ( o friso assenta directamente sobre as paredes ), singelas cruzes a brazoná-la, nem até na empena da frontaria se levanta airosa uma sineira. É rude e austera como convém a uma serranita que vive isolada, fora dos caminhos, onde passa o viver quotidiano.

 


Capela de São Pedro, Séc. XIV
 


Capela de São Pedro , Séc. XIV
 

A sua historia...

Não sei que mãos piedosas a fizeram erguer.
Os documentos que pude encontrar são somente do século XVII para cá, desde o começo da sua má ventura.
O tombo velho da igreja paroquial, que ainda pelos meados do século XIX serviu para derimir a questão da sua posse entre Avô e Anseriz, como mais adiante direi, desapareceu.
Do tempo em que ela foi acarinhada pelos povos em volta, das antigas romagens litúrgicas, restam somente leves indicações nos documentos encontrados, a tradição no povo, e a visita actual das Freguesias de Avô, Anseriz e Pomares, pelas ladainhas menores, nos três dias anteriores à quinta--feira da Ascensão, e no dia do Apóstolo, em que, no largo onde se fez outrora uma pequenina feira, se baila no pó e no calor de Junho.

LADAINHAS

Dezoito Freguesias, no dizer de testemunhas coevas, com estremada devoçam, como diz um visitador, com a sua cruz e o seu clero, na quinta-feira depois do Domingo da Páscoa, vinham terminar aqui a melopeia queixosa das
LADAINHAS.

Nota : As Notícias das Igrejas do Bispado de Coimbra ( Biblioteca Nacional de Lisboa ) a fl. 238 do tomo II, dizem : " Ha mais outra capella de Sam Pedro na mesma distância a que por antigo voto sam obrigados a vir como de prezente vem em romaria dezoito freguezias na primeira quinta-feira depois da Paschoa. "

No relatório do vigário de Avô, Caetano de Sousa, para as Memórias Paroquiais de 1758, vem o mesmo número.
Para não esfacelar o pouco destas notas que se refere à Capela de São Pedro, transcrevo integralmente : "Fora desta villa quasi hum quarto de legoa se venera em sua capella o príncipe dos Apóstolos o Senhor Sam Pedro achasse esta fundada em lugar alto, espaçoso, que se lhe descortina largas distâncias, he huma das mais antigas e frequentada Romaria porque todas as sextas feiras de Mayo vam a ella em prociçam as cruzes desta villa, Pomares e Anseris, e por costume antigo, que excede a memória, na primeira quinta feira depois de domingo de Paschoa se ajuntavam naquella capella dezoito freguesias em prociçam, e como sucedessem algumas desordens por virem de duas e três légoas de distancia o Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo Conde deste Bispado commutou-lhe o voto a algumas das mais distantes e em esse dia no mesmo sítio se fás huma pequena feira franca." Memórias Paroquiais de 1758 - T.V,fl. 939. Torre-do-Tombo. Eram as de ao pé - Avô, Anseris, Pomares, Alvoco de Várzeas... as de mais longe - Midões, Seixo do Ervedal… e outras, até dezoito. Não se sabe quando começaram a vir.

Nota :No jornal, Folha do Centro, de 27 de Abril de 1995, o Prof. Jerónimo Sanches Pinto escreve : "No passado foi esta ermida muito concorrida. Até aos meados do Século XVIII, dezoito freguesias, por voto antigo aqui se deslocavam com a cruz levantada com os respectivos párocos, cantando as ladainhas. É curioso que até as freguesias de Seixo da Beira e Travanca de Lagos aqui se deslocavam."

No tombo da Igreja de Travanca de Lagos podemos ainda hoje ler : " Por costume antigo e tradições que têm os seus antepassados que por devoção e voto que fizeram os fregueses desta freguesia de Travanca de ir em procissão com ladainhas e cruz levantada na primeira quinta-feira do Crasmol a S. Pedro de Entre Vinhas ao pé de Anseris."
" Também em tempos remotos o povo de Avô se deslocava a S.Pedro todas as Sextas-Feiras de Maio, no dia de São Jorge ( 23 de Abril ) e num dos dias das Ladainhas Menores. Este último costume ainda se mantinha há poucos anos e eu professor desta vila também me deslocava com a gente mais jovem, embalados pelo canto e oração implorávamos bênçãos para os campos verdejantes e lá subíamos a montanha respirando o ar puro e implorando do glorioso Apóstolo, a quem ofereciam ramos de cravos, graças para o seu noivado. Este hábito ainda se mantém na Festa do Glorioso Santo, a 29 de Junho de cada ano.

Ali se realizava em quinta-feira a seguir à Páscoa uma feira franca ( ninguém pagava imposto pela compra e venda dos seus produtos ), costume que desapareceu
".

O mesmo se dá com o motivo que levou no mesmo impulso de fé, as dezoito freguezias para a capelita.
Como é sabido, as fomes e as pestes que por vezes invadiram o nosso País provocaram da parte do povo, das câmaras, das colegiadas, procissões penitenciais, e não raro se lhes juntava o voto de as repetir anualmente.
Estas a São Pedro, posto que próximas das Ladainhas Maiores ou de São Marcos, são-lhes distintas; as de São Marcos têm o seu dia fixo - 25 de Abril, dia em que já no século IV, em Roma, havia súplicas especiais; distintas também das Ladainhas Menores, que desde o século V antecedem a festa da Ascensão.

As de São Pedro realizavam-se na quinta-feira depois do domingo de Páscoa, como o dizem testemunhas, já atrás citadas, que as viram desenrolar, que muito provavelmente tomaram parte nelas.

Não eram, indubitavelmente, por isso, deslocação do dia daquelas outras, deslocação impossível de se admitir se atendermos que eram dezoito freguezias que deveriam ser concordes nisso; como impossível de admitir é, que só para satisfazer ao carácter processional e estacional das Rogações se viesse de tão longe, como do Seixo do Ervedal, onde perdura a sua lembrança.

Tiveram, pois, princípio nalgum facto que documentalmente não sei qual fosse ; talvez o da falta de chuvas por algum tempo, como diz a tradição.

A existência dum voto parece certa. O já citado vigário de Avô, Caetano Sousa, em 1758, refere-se-lhe, dizendo que o Prelado de Coimbra o comutara a algumas das freguesias mais distantes ; mas não acrescenta a causa por que foi feito, nem tão pouco diz quais fossem.

Aquela comutação foi o primeiro passo na decadência das Ladainhas, que a falta de documentos não nos deixa acompanhar.

 


Capela de São Pedro, Séc. XIV
 


Capela de São Pedro , Séc. XIV
 


Em 1775 há uma nova referência.

O visitador no arcediagado de Seia, a 11 de Novembro daquele ano, ordenando reparações na capela que estava bastante arruínada, como se verá adiante, diz: "Constame q. a capella de Sam Pedro de entre as moutas desta freguesia he muito antiga, e a ella concorrem com estremada devoçam os povos destas visinhanças e indo muntos delles com sua crus em prociçam a dita capella repetidas vezes no ano".( Livro das Visitas, fl. 32, v.° - Arquivo da Irmandade do SS.mo de Avô.)

Não obstante aqui haver uma certa confusão com as Ladainhas das sextas-feiras de Maio, das freguesias de Avô, Anseriz e Pomares de que já vamos falar, vê-se que então ainda iam bastantes, talvez todas as não dispensadas.
A maior deserção deveria começar depois desta data, em virtude do estado da capela. A parede norte encontrava-se arruínada, bem como o telhado, e não se podiam lá celebrar os actos do culto.

Quando viesse o ano de 1815, em que o visitador a interditou ( já o anterior citado, o de 1775 , tinha declarado que o ficaria se, passados dois meses, não fosse composta ), bem poucas seriam as freguesias, se ainda algumas eram, que lá fossem ; e depois deste ano o abandono foi total.
Abandono causado não somente pelo seu estado material, mas ainda mais pela censura imposta.
Avô, quere-me parecer, já há tempo que não ia a São Pedro na quinta-feira da semana pascal.
Num livro do arquivo daquela igreja - Titelo das obrigações assim do Parroco, Beneficiados, Thizoureiro, como dos Parroquianos : e dos uzos, e costumes desta Igr.a e Colegiada da Villa de Avô, escrito em 1817, não encontrei referência a estas Ladainhas, não obstante no Capítulo Lembranças dos uzos e costumes desta Igr.a pelos mezes do ano - Maio, falar dos pontos terminais das procissões das Ladainhas Menores , sendo um deles São Pedro, na terça-feira, pelos seguintes termos :

"Nas Ladainhas gerais vão na segunda fr.a à Snr.a do Mosteiro, na terça a S. Pedro, e na quarta ao Altar do Apostolo S.Thiago na capella do Mosteiro, onde se dizem as preces.
Adverte-se que a capella de S.Pedro está arruínada, e suspensa, e p.r este impedimento nesses dias que era costume ir a S. Pedro, se vai à Capella de N.S. dos Anjos".

É a única referência que encontrei de S. Pedro ser um dos lugares das estações das Ladainhas da Ascensão, o que era natural.

Apesar de não ter dados alguns, estou em crer que pelo menos algumas das igrejas filiais de Avô, também ali iriam nesses dias.

Além destas procissões na semana pascal e a de Avô pelas Ladainhas Menores, havia outras, todas as sextas-feiras de Maio, de Avô, Anseriz e Pomares, como diz Caetano de Sousa ( Memorias Parochiais, loc.cit.) e o livro dos usos e costumes da Colegiada. ("Maio - Todas as sextas-feiras Ladainhas com Missa à Capela de S.Pedro." Seguidamente em letra diversa "achão-se mudadas p.a a Capella da Snr.a dos Anjos."- Loc. cit. no texto um pouco anteriormente. )
As das duas últimas freguesias teriam desaparecido com o interdito, e as daquela outra, mudadas também para a Senhora dos Anjos, ir-se-iam com a extinção da Colegiada.

Pelo meado daquele século, em data que me não foi possível precisar, recompôs-se a capelita e voltaram as cruzes de Avô, Anseriz e Pomares com as Ladainhas ; mas em lugar de ser no dia tradicional, começaram a ir no dia das Ladainhas Menores, Ladainhas que, como é sabido, são preceituadas pela liturgia romana.

Os visitadores do antigo arcediagado de Seia, na sua linguagem simples, deixaram aqui e além, pelos termos de visita da Igreja de Avô, pequenos fragmentos da litania de pobreza e abandono material que a capelita vem arrastando desde não sei se pouco depois da sua edificação.

O de 1712, Dr. Manuel Moreira Rebêlo, Protonotário Apostólico e Provisor do Bispado, é o primeiro a falar-nos dela :
"E porque a fabrica he tão bem obrigada a ornar a cap.a de São Pedro ordeno se mande em tr.° de tres mezes reformar o forro della, e os mordomos mandarão consertar as paredez do corpo da mesma cap.a e retelhada em forma q nella não chova, e se conserterá o Calix da Igreja pertencente à fabrica naquella parte em q está cobrado ao q tudo se satisfará sob pena de quatro mil reis".( Livro das Visitas da Igreja de Avô, fl.44 v.°) - Um pouco anteriormente, em 1688, o visitador Manuel Soares de Gouveia, vigário de San-Miguel de Coja, deixou-nos uma nota interessante de como se tratavam algumas capelas.

"feseme queixa q. nas Ermidas se malhava e recolhião as novidades couza mt.° indeçente, e p.a se stranhar, pello q. mando pena de Ex.oam e de qt.os reis p.a a confr.a do s.or que nunhua pesoa malhe, nem recolha fructos alguns nos d.os lugares q. só forão erigidos p.a os fieis nelles orarem, e não p.a seuirem de Eiras, e çeleiros."-( Liv. cit., fl. 46 v.°. )

Os mordomos de São Pedro e o fabricário da capela-mor da igreja, simplesmente não se importaram com o que ordenara o visitador, o que era muito vulgar então e ainda hoje.
Na visita seguinte, a de 1715, o Dr. Domingos Francisco Nunes, como nada se fizera, diz :
"Também se ordenou na passada q o forro da capella de São Pedro a q he obrigada a fabrica da capella mor desta igreja se reformasse ao que se não deo comprim.to antes se me fes queixa estava chovendo no altar e por isso se não podia dizer missa nelle pello q mando ao R.o fabricario com pena de quatro mil reis q dentro de tres meses mande reparar o dito forro e o telhado p.a q não chova nella".

Não obstante vir, como já na anterior, a ameaça da multa, a capela continuou como estava.
Ora, em 18 de Maio de 1717, o visitador, o mesmo da de 1715, mas então Prior da Colegiada de São Tiago de Coimbra, encontrando-a no mesmo estado, escreve no livro das visitas :
"Como já nas passadas fosse mandado se reparase o forro e o telhado da cap.a de S. Pedro por estar de man.a q no altar se não pode dizer missa por chover no altar e o Rd.o fabricario o não mandase fazer estando a seo cargo o ei por condemnado nos tres mil reis cominados no cap° de passada e sob a mesma em dobro lhe md.° q dentro de tres meses md.e cumprir o d.° cap.°" (Livro citado, fl.50 ).

O pobre prior de S. Tiago leu mal, não viu que eram quatro mil reis o que se dizia nas duas outras visitas.
Desta vez presumo que se consertou ; só em 1774 se lhe torna a aludir.

Este estado da capela não era somente produzido pelo desleixo.
A igreja paroquial desde alguns anos, andava em reconstrução. Haviam-se lançado derramas pelo povo ; os rendimentos próprios dever-se-iam consumir inteiramente ; nada restaria para se aplicar às capelas. Isto é-nos confirmado pelo cónego da Sé de Coimbra, João da Costa Saraiva, que em 1718 louva o zêlo dos paroquianos de Avô, e por ver que se tinha gasto muito com ela, dispensando-os de a mandar soalhar logo. ( Livro citado, fl. 582. )
Não se torna a falar em São Pedro senão em 1744.

Vinha em visita o Dr. Manuel Rodrigues Teixeira, Vigário de Maçãs de D.Maria, Comissário do Santo Ofício, Juiz dos Resíduos, Chanceler e Vigário Geral.

Foi até à capela, viu bem tudo, ordenou:
"Necessita a Capp.a do Glorioso Appostollo Sam Pedro de ser rebocada e cayada, e também rebocado o tecto della para milhor rezistir aos temporaiz = de se fazer hum retablo novo em que o mesmo Sancto esteja com decencia = De hum frontal de madr.a pintado de hua banda com boas pinturas de festa e pella outra com as proporsionadas para o tp° de Advento e Quaresma, e de ser consertada a vestimenta de setim com estolla e manipullo= de hum cordam de boas linhas = De trez pallas de linho bem engomadas ; e tambem necessita o caixam dos ornam.tos de ser concertado : a cujas despesas está obrigada a Fabrica da Capp.a mor desta Igr.a ; e por isso md.° que o Rev. Fabricario dela no termo de trez meses por conta da m.a Fabrica ponha em ex.am o referido mandando-o fazer ; e q°° a isto falte : o R° Parroco sob de obd.a findo o dito tr.° de conta com o theor deste cap° a Meza da Justissa Ecclesiastica para contra elle se proceder como pareser justo. O m.° R .° Parroco no termo de quinze dias fará demolir os Altares que estam na dita capp.a, de Santo Ildefonso e de N. Snr.a da Piedade v.° não estarem ornadoz, nem haver q.m os orne ; e a Imagem de Santo Ildefonso fará collocar no Altar do Glorioso Sâo Pedro."- (Livro citado, fl. 73 e v.° )

Estou em crer que nada do que se ordenou nesta visita, se fez ; nem retábulo, nem frontal, nem paramentos ( agora não tem nenhuns ). Os altares laterais desapareceriam quando da quase ruína em que a capela esteve e a camada de tinta que a imagem tem a deformá-la, parece-me ser posterior.

Foi então que se começou a acentuar a sua decadência. Algumas freguesias, como disse, foram dispensadas de ali irem com as Ladainhas, e outras foram-se dispensando. O próprio edifício arruínava-se.
Do seu estado de miséria diz-nos claramente Inácio José Gomes da Silva, Prior de Santa Comba Dão.
A 11 de Novembro de 1775 vai em visita a Avô, e escreve no livro das visitas :
"Constame q. a capella de S.Pedro de entre as moutas desta freguesia he muito antiga, e a ella concorrem com estremada devoçam os pouos destas vesinhanças e indo muntos delles com sua crus em prociçam a dita capella repetidas vezes no anno ; esta capella acha-se com huma parede arruinada e por consequencia necessitada de caibrada e tilhada para nella continuar a antiga deuoçam destes pouos e nella se celebrar o altissimo sacrificio da missa, e como nam tem rendimento algum para a sua reydeficaçam e esta freguesia tanto se entereça em que presista e se nam extinga esta deuoçam, e concurso das uezinhas e no que respeyta ao mais esta suficiente paramentada mando que o R.°° Parocho perpondo primeyro na Igr.a ao pouo a percizam q. ha desta obra a seu consentimento proceda com dois homens bons e de sam conciencia avaliando-se primeyro o importe da dita obra proceda a finta e coando os mesmos repugnem o Juis da Ig.sa requererá ao D.os Prouedor desta comarca com theor deste Capitulo que o dito Reuerendo Parocho lhe dará para que o mesmo retissimo menistro mande proceder à dita finta para que se conserve a deuoçam o que se executara dentro em dois meses e coando assim se nam execute fiqve suspensa a mesma capella e o R.° Parocho para conduzir os santos da mesma capella para a sva Igr.a aonde os colocarão em lugar decente o qve tudo espero faça pelo seu zello e coando por falta de telha se nam conclua a obra da dita capella nam he minha intenção q. neste caso fique suspensa contanto que havendo telha nova ella se neste tempo se conclua"-( Livro das Visitas, fl.93 v.° e 94 ).

Não sei se o pároco, o juiz da igreja, ou aquele outro retissimo menistro fizeram alguma coisa, mas presumo que não. Presumo que ninguém se importou que, passados os dois meses dados para a compor, ficasse suspensa ; nem o pároco também teve o incómodo de transportar os santos para a igreja.

Em 1815 veio o interdito…
"Porque as Capllas do lugar da Moura, de São Pedro e do Santo Christo ( hoje esta capela é a de Nossa Senhora de ao Pé da Cruz, em Anseriz ) situadas nos subúrdios desta Vlla estão incapazes dos seus fins e de se celebrar nellas o augusto Sacrifício da Missa tanto em razão dos estragos dos edefícios como da falta dos Paramentos indispensáveis : ficam suspensas athe que sejão reparadas, e paramentadas, com a devida decencia do qual julgará o Reverendo Arsipreste do Districto". ( Livro das Visitas, fl.111. O visitador era o R.° José da Costa e Silva, prior e arcipreste de Nogueira do Cravo, a que Avô pertencia. Actualmente é sede de Arciprestado. )
O livro das obrigaçôes e dos usos e costumes, em 1817, dá-a ainda como interdita, e alguém, mais tarde, põe-lhe uma nota dizendo o mesmo.
Continuou assim por anos.

Pelos meados do século último (XIX) , em ano que não pude determinar, um José das Neves, de Anseriz, condoído daquela miséria, pôs-se a pedir pelos povoados serranos para a recompor, o que conseguiu.
Como ficou dito, voltaram as cruzes de Avô, de Anseriz e de Pomares pelas Ladainhas Menores. E foi de ver como os de Anseriz olhavam para os de Avô e lhe iam gritando que a capela era deles, muito deles - eles a tinham composto. Ora os de Avô não gostaram, e vá de começarem rixas, de pegar no São Pedro e tentar levá-lo para a sua igreja, eles que o tinham abandonado.

Como durante alguns anos se repetissem as desordens, as justiças de Oliveira do Hospital e de Arganil, a que pertenciam respectivamente Avô e Anseriz, ( desde o decreto de 24 de Outubro de 1855, pois até essa data, Anseriz pertencia ao Concelho de Avô ) tiveram de intervir, e à face do tombo velho, agora desaparecido, declararam ser a capela de Avô. Os daquela outra (refere--se aos de Anseriz ) ,muito dignos, voltaram costas, desceram a ladeira, e nunca mais Anseriz voltou a S. Pedro ." ( Esta última parte, foi tirada segundo o Rev.Padre Antonio Nogueira Gonçalves, de "Alma Nova" - vol.III, n° 25-30. Lisboa, 1925 ).

Nota complementar :
O abandono destas capelas prolongou-se por muitos anos, devido a alguns factores, como sejam o aparecimento em 1820 do Liberalismo e as lutas prolongadas entre liberais e conservadores. Depois também as lutas fratricidas, repletas de terror e de sangue , de que a nossa região foi palco ( lutas entre os apoiantes do famoso João Brandão, de Midões, dos Pintos , de Seia ,etc. ).

Depois em 1855 acaba o Concelho de Avô e Anseriz separa-se deste, a que esteve sempre ligada e entrou no Concelho de Arganil. Com esta separação, o povo de Anseriz, encontrou coragem para recompor a capela do Santo Cristo. Como o Papa Pio IX, em 1854, tinha implantado na Igreja o Dogma da Imaculada Conceição e o culto a Maria se tornou ainda maior em Portugal, alterou-se o nome desta Capela para Nossa Senhora de ao Pé da Cruz. Restituída esta capela à sua dignidade, o povo de Anseriz, orientado pelo bom cristão e cidadão José das Neves, através dum peditorio regional, consegue restaurar também a Capela do Glorioso São Pedro. A decisão do Tribunal feriu o orgulho dos Anserizenses e esta mágoa ficou sempre. Até que, no início da década de 1930, alguns jovens anserizenses concretizaram o que muitos pensaram e nunca conseguiram fazer : roubaram a imagem de S. Pedro e trouxeram-na para Anseriz.

Referente a este roubo, eis o que a "Comarca de Arganil" relatou a 19 de Setembro de 1933: " Avô-18. Hoje demanhã, uns trabalhadores que andavam ao serviço do sr. Padre António Fernandes Jorge, passando junto da Capela de São Pedro, viram a porta aberta e a imagem de São Pedro tinha desaparecido. Os sinos tocaram a rebate e é grande a consternação em todo o povo." Dias depois, o mesmo jornal noticiava: " Avô-27. Apareceu já a imagemde São Pedro, que havia sido roubada.A imagem, que é muito pesada, foi encontrada na passada quinta-feira, por uma mulher, no sítio da Cruz de Pomares. A imagem veio para a Igreja de Avô e no dia de São Miguel organizou-se uma procissão para a sua capela."

No jornal, A Comarca de Arganil, do dia 27 de Setembro de 1933 o correspondente de Avô, senhor M.S.da Fonseca escreve : " A imagem de S.Pedro, que, como este jornal noticiou, havia sido roubada da sua capela, no dia 17, o que causou grande indignação ao povo avoense, apareceu no dia 21 na Cruz de Pomares e Anseriz. Houve certamente o intuito de incriminar os pomarenses, mas o povo de Avô não atribui a estes a proeza.
O caso está entregue às autoridades, esperando-se que tudo se esclarecerá em breve ".
O certo é que nada se esclareceu e o segredo deste desvio manteve-se bem guardado até aos nossos dias. Hoje, sabemos que os actores deste roubo foram três jovens de Anseriz, bem conhecidos pelas suas brincadeiras e atrevimentos : José Alves Júnior,( neto do José Alves, que havia restaurado a capela ) José dos Santos Camilo ( conhecido por Angelino ) e João Caetano ( já todos falecidos ).

Tudo começou na feira de Avô, do mês de Agosto desse ano, em que no regresso da feira, já na calçada de Anseriz, se discutiu a pertença da imagem de São Pedro . Então, estes jovens decidiram passar a acção. De noite, roubaram a imagem do Glorioso Apóstolo e trouxeram-a para Anseriz, escondendo-o num palheiro das Eiras. O escândalo rebentou, os jornais regionais noticiaram o acontecimento e a guarda pôs-se em campo. A povoação de Anseriz era a visada. Os jovens, com receio que o Santo fosse descoberto, resolveram atá-lo a uma corda e lançá-lo no fundo do poço do quintal do José Alves ( pai ), às Eiras. Como as investigações continuassem e se tornavam perigosas para os jovens, estes decidiram tirar o S.Pedro do banho, do fundo do poço e levá-lo para junto do Cruzeiro do Ferreiro, à Cruz de Pomares, por onde diariamente passavam pessoas. No dia seguinte, a imagem do Santo foi encontrada dentro duma cesta, e ao lado do São Pedro estava uma broa, um queijo e uma garrafa de vinho. O alarme foi dado, a imagem voltou à capela e houve alegria, procissão de desagravo à Capela de São Pedro e grande festa em Avô .
A partir desta data, a capela começou a ficar bem segura e segundo o Prof. Jerónimo Sanches Pinto, em 1944 " foi comprada uma linda imagem em madeira, para ser transportada nas procissões e estar sempre na capela, mas conservamos religiosamente a antiga, feita em pedra e de incontestável valor artístico, pela sua antiguidade".
A Capela e o recinto, graças ao dinamismo duma Comissão, foram aranjados e no dia 30 de Abril de 1995 foram inauguradas as obras de restauro: à volta do santuário muitas árvores e flores foram plantadas,foi feito um grande recinto em cimento, com um palco atrás e ao lado um bar coberto, com um forno e churrasqueira ao lado, assim como mesas no pinhal. Abriu-se também um caminho para dar maior relevo à procissâo. É de referir que anos antes foi construído um altar de granito, ao ar livre, do lado poente da capela, para celebração de missas campais, pois a capela era pequena para tantos peregrinos. Todos os anos a festa do dia 29 de Junho se tem feito com grande religiosidade e animação no próprio local.

Aqui fica um pouco, da rica história deste Santuário, que merece todo o nosso respeito e que turisticamente é um local belíssimo, para ser visitado e apreciado, devendo constar dos roteiros turísticos do nosso maravilhoso e poético rio Alva e da nossa montanha verde e saudável, que é a Serra do Açor.

Manuel da Silva Fernandes - Setembro de 2002