 |

Homepage
A
Freguesia
História
Património
Religioso
Famílias
e Ilustres
Capela
de São Pedro
Um
pouco da história
Localização
Galeria
Símbolos
Vida
Associativa
Ecoturismo
|
|
| |

Vista Panorâmica de Avô
|
|
Vista
Panorâmica de Anseriz
|
|
A Capela
de São Pedro "entre as vinhas", como outrora
era conhecida, situa-se nos limites das Freguesias de Avô e de Anseriz,
se bem que juridicamente pertença à vila de Avô.
Sempre o bom povo de Anseriz lhe dedicou especial devoção,
pois este lugar de culto, dedicado ao primeiro dos Apóstolos, tornou-se
uma ermida da região, ao longo dos séculos. Pensa-se que
a sua fundação date da metade do século XIV, por
ocasiâo da peste negra, que assolou toda a Europa
e que dizimou milhares de pessoas.
Para que os habitantes destas freguesias e da região conheçam
melhor a história deste santuário beirão e também,
porque acreditamos no futuro turístico deste belo e saudável
planalto, sobranceiro ao rio Alva e miradouro do Colcurinho e da Serra
da Estrela, aqui deixamos um pouco da vida e da história desta
velhinha capela de São Pedro.
Os apontamentos apresentados foram tirados da história da Capela
de São Pedro, feita na década de 1940 pelo Rev. Padre António
Nogueira Gonçalves, natural da Sorgaçosa, da vizinha freguesia
de Pomares e já falecido e de recortes de jornais regionais, de
autoria de M.S.Fonseca e do Prof.Jerónimo Sanches Pinto, assim
como de testemunhos recolhidos.
Segundo o Padre António Nogueira Gonçalves, " A
capela de São Pedro é muito pequena, de pouca altura e grande
simplicidade, de uns catorze metros de comprimento. Tem uma só
nave e correspondente ábside quadrangular, a que nos últimos
anos do século passado (século XIX) ou primeiros deste,
juntaram, em continuação de seus muros, uma sacristia, que
deu à construção aquela forma desgraciosa de dois
corpos iguais.
Na fachada, olhando o poente, abre-se a porta de um só arco em
ogiva. A seus lados há duas frestas pequenitas, a desigual altura
do solo, tapadas interiormente.
A meio da parede norte está outra porta , com a verga em semicírculo,
e tão exígua que só tem 1,70 de altura.
No topo da nave, ladrilhada de largas pedras de granito e de tecto singelamente
apainelado e muito baixo, abre-se o arco triunfal, semicircular, bastante
largo e com pilastras curtas, pintado actualmente a vermelho.
No altar muito pobre, simples tábuas aplainadas e cobertas grosseiramente
de tinta que está a cair, a imagem de São Pedro do século
XV, da estatuária medieval coimbrã, estatuária de
que tenho encontrado exemplares interessantes.

São Pedro, Séc XV
É o humilde apóstolo, descalço como na iconografia
medieval se representavam os apóstolos, segurando lassamente o
evangeliário e a chave, de barba encaracolada e cabelo fazendo
coroa.
Outrora houve mais dois altares na capela, provavelmente um de cada lado
do arco do cruzeiro. Fala neles o termo da visita da igreja de Avô
no ano de 1744, em que se mandavam retirar."
No
livro de Visitas, fl. 73 v.° - Arquivo da Irmandade do SS.mo de Avô,
pode ler-se : " O m.°R.° Parroco no termo de quinze
dias fará demolir os Altares que estam na dita cappela, de Santo
Ildefonso e de N.Snr.a da Piedade vt.° não estarem ornadoz,
nem haver q.m os orne ; e a imagem de Santo Ildefonso fará collocar
no Altar do Glorioso São Pedro.
Santo Ildefonso já se não encontra na Capela. Procurei-o
inutilmente por Avô e pela vizinha Anseriz, e todos a quem me dirigi
desconheciam tal imagem. Em 1775 ainda ali se mantinha, porque na visita
desse ano, em virtude de estado da capela, eram mandados retirar os santos
para a igreja paroquial. Desapareceu porventura quando do maior abandono
daquela."
No que diz respeito a Santo Ildefonso, hoje podemos informar o seguinte
:
Na década de 1960, o Pároco de Anseriz, Rev. Padre Januário,
de saudosa memória, ao reparar e pintar o Altar-Mor da igreja de
Anseriz e ao fazer a limpeza das traseiras do mesmo altar, encontrou uma
imagem sem cabeça. Depois, encontrou a um canto uma cabeça,
que veio a verificar pertencer à mesma imagem. Fez a devida colagem
e depois de averiguações soube que se tratava da imagem
de Santo Ildefonso. Como era um Santo de muita devoção nesta
Freguesia e, segundo se consta chegou a existir uma capela, pois foram
encontrados vestígio no lugar de Santo Ildefonso, a imagem foi
colocada na sacristia da Igreja de Anseriz, onde ainda se encontra. Lembramos
que Santo Ildefonso foi arcebispo de Toledo, de 657 a 667. Participou
em dois Concílios e foi teólogo, orador, poeta e escritor
muito apreciado na Península Ibérica.O que é certo,
é que este lugar ficou sempre conhecido por quinta de Santo Ildefonso
e segundo o relato do livro dos óbitos da Freguesia de Anseriz
do ano de 1903, Assento N°1, lê-se :
" Aos dois de Fevereiro do ano de 1903, às 5h. da tarde
faleceu Josephina Augusta, de 5 anos, filha de António Castanheira,
de Anseriz e de Maria Augusta, de Abrunhosa, Mangualde, residentes na
Quinta de Santo Ildefonso ". No mesmo ano faleceu o pai,
António Castanheira. Deviam ter sido os últimos habitantes
deste lugar, que pertencia a Anseriz. É, pois, muito natural, que
quando a capela desapareceu no lugar de Santo Ildefonso, a imagem tivesse
sido levada para a ermida de São Pedro, que fica na mesma encosta
e depois ao ter que ser retirada desta capela, os habitantes de Anseriz
a recuperassem ou a escondessem. A actual Junta de Freguesia, em 2001,
enriqueceu a toponímia da freguesia, com o "Caminho
de Santo Ildefonso" no cimo da povoação.

Santo Ildefonso, Séc XV
A Senhora da Piedade não seria mais que alguma gravura e
por isso o visitador não faz a seu respeito recomendação
nenhuma.
Iluminando o Altar, há do lado da Epístola uma pequena fresta
horizontal, a única que agora, depois do tapamento interior das
de poente, ilumina a capela ; mas abertas as portas, a luz e ar lavado
da serra inundam-na. Pois, se ela é tâo pequenina !
Ainda do mesmo lado do Altar abre-se a porta para a sacristia, que, como
a outra que faz a comunicação desta com o exterior, foi
feita à imitação da lateral da nave, e para cuja
abertura desmancharam quase metade da parede do fundo da ábside.
Quando da construção daquela dependência, altearam
todo o corpo da capela, cerca de meio metro, o que nitidamente se conhece
pela diversidade de silharia.
As paredes de granito só exteriormente são revestidas de
silhares em fiadas horizontais irregulares.
A ornamentação é nula. Somente as arestas das portas
e arco triunfal são chanfradas, sendo os chanfros no arco cruzeiro
côncavos. As impostas deste e da porta poente têm simples
molduras.
Não há um florido capitel, cachorros ornados ( o friso assenta
directamente sobre as paredes ), singelas cruzes a brazoná-la,
nem até na empena da frontaria se levanta airosa uma sineira. É
rude e austera como convém a uma serranita que vive isolada, fora
dos caminhos, onde passa o viver quotidiano.
| |

Capela de São Pedro, Séc. XIV
|
|
Capela
de São Pedro ,
Séc. XIV
|
|
A sua historia...
Não sei que mãos piedosas a fizeram erguer.
Os documentos que pude encontrar são somente do século XVII
para cá, desde o começo da sua má ventura.
O tombo velho da igreja paroquial, que ainda pelos meados do século
XIX serviu para derimir a questão da sua posse entre Avô
e Anseriz, como mais adiante direi, desapareceu.
Do tempo em que ela foi acarinhada pelos povos em volta, das antigas romagens
litúrgicas, restam somente leves indicações nos documentos
encontrados, a tradição no povo, e a visita actual das Freguesias
de Avô, Anseriz e Pomares, pelas ladainhas menores, nos três
dias anteriores à quinta--feira da Ascensão, e no dia do
Apóstolo, em que, no largo onde se fez outrora uma pequenina feira,
se baila no pó e no calor de Junho.
LADAINHAS
Dezoito Freguesias, no dizer de testemunhas coevas, com estremada devoçam,
como diz um visitador, com a sua cruz e o seu clero, na quinta-feira depois
do Domingo da Páscoa, vinham terminar aqui a melopeia queixosa
das
LADAINHAS.
Nota : As Notícias das Igrejas do Bispado de Coimbra ( Biblioteca
Nacional de Lisboa ) a fl. 238 do tomo II, dizem : " Ha mais outra
capella de Sam Pedro na mesma distância a que por antigo voto sam
obrigados a vir como de prezente vem em romaria dezoito freguezias na
primeira quinta-feira depois da Paschoa. "
No relatório do vigário de Avô, Caetano de Sousa,
para as Memórias Paroquiais de 1758, vem o mesmo número.
Para não esfacelar o pouco destas notas que se refere à
Capela de São Pedro, transcrevo integralmente : "Fora desta
villa quasi hum quarto de legoa se venera em sua capella o príncipe
dos Apóstolos o Senhor Sam Pedro achasse esta fundada em lugar
alto, espaçoso, que se lhe descortina largas distâncias,
he huma das mais antigas e frequentada Romaria porque todas as sextas
feiras de Mayo vam a ella em prociçam as cruzes desta villa, Pomares
e Anseris, e por costume antigo, que excede a memória, na primeira
quinta feira depois de domingo de Paschoa se ajuntavam naquella capella
dezoito freguesias em prociçam, e como sucedessem algumas desordens
por virem de duas e três légoas de distancia o Excelentissimo
e Reverendissimo Senhor Bispo Conde deste Bispado commutou-lhe o voto
a algumas das mais distantes e em esse dia no mesmo sítio se fás
huma pequena feira franca." Memórias Paroquiais de 1758 -
T.V,fl. 939. Torre-do-Tombo. Eram as de ao pé - Avô, Anseris,
Pomares, Alvoco de Várzeas... as de mais longe - Midões,
Seixo do Ervedal
e outras, até dezoito. Não se sabe
quando começaram a vir.
Nota :No jornal, Folha do Centro, de 27 de Abril de 1995, o Prof. Jerónimo
Sanches Pinto escreve : "No passado foi esta ermida muito concorrida.
Até aos meados do Século XVIII, dezoito freguesias, por
voto antigo aqui se deslocavam com a cruz levantada com os respectivos
párocos, cantando as ladainhas. É curioso que até
as freguesias de Seixo da Beira e Travanca de Lagos aqui se deslocavam."
No tombo da Igreja de Travanca de Lagos podemos ainda hoje ler : "
Por costume antigo e tradições que têm os seus antepassados
que por devoção e voto que fizeram os fregueses desta freguesia
de Travanca de ir em procissão com ladainhas e cruz levantada na
primeira quinta-feira do Crasmol a S. Pedro de Entre Vinhas ao pé
de Anseris."
" Também em tempos remotos o povo de Avô se deslocava
a S.Pedro todas as Sextas-Feiras de Maio, no dia de São Jorge (
23 de Abril ) e num dos dias das Ladainhas Menores. Este último
costume ainda se mantinha há poucos anos e eu professor desta vila
também me deslocava com a gente mais jovem, embalados pelo canto
e oração implorávamos bênçãos
para os campos verdejantes e lá subíamos a montanha respirando
o ar puro e implorando do glorioso Apóstolo, a quem ofereciam ramos
de cravos, graças para o seu noivado. Este hábito ainda
se mantém na Festa do Glorioso Santo, a 29 de Junho de cada ano.
Ali se realizava em quinta-feira a seguir à Páscoa uma feira
franca ( ninguém pagava imposto pela compra e venda dos seus produtos
), costume que desapareceu".
O mesmo se dá com o motivo que levou no mesmo impulso de
fé, as dezoito freguezias para a capelita.
Como é sabido, as fomes e as pestes que por vezes invadiram o nosso
País provocaram da parte do povo, das câmaras, das colegiadas,
procissões penitenciais, e não raro se lhes juntava o voto
de as repetir anualmente.
Estas a São Pedro, posto que próximas das Ladainhas Maiores
ou de São Marcos, são-lhes distintas; as de São Marcos
têm o seu dia fixo - 25 de Abril, dia em que já no século
IV, em Roma, havia súplicas especiais; distintas também
das Ladainhas Menores, que desde o século V antecedem a festa da
Ascensão.
As de São Pedro realizavam-se na quinta-feira depois do domingo
de Páscoa, como o dizem testemunhas, já atrás citadas,
que as viram desenrolar, que muito provavelmente tomaram parte nelas.
Não eram, indubitavelmente, por isso, deslocação
do dia daquelas outras, deslocação impossível de
se admitir se atendermos que eram dezoito freguezias que deveriam ser
concordes nisso; como impossível de admitir é, que só
para satisfazer ao carácter processional e estacional das Rogações
se viesse de tão longe, como do Seixo do Ervedal, onde perdura
a sua lembrança.
Tiveram, pois, princípio nalgum facto que documentalmente não
sei qual fosse ; talvez o da falta de chuvas por algum tempo, como diz
a tradição.
A existência dum voto parece certa. O já citado vigário
de Avô, Caetano Sousa, em 1758, refere-se-lhe, dizendo que o Prelado
de Coimbra o comutara a algumas das freguesias mais distantes ; mas não
acrescenta a causa por que foi feito, nem tão pouco diz quais fossem.
Aquela comutação foi o primeiro passo na decadência
das Ladainhas, que a falta de documentos não nos deixa acompanhar.
| |

Capela de São Pedro, Séc. XIV
|
|
Capela
de São Pedro ,
Séc. XIV
|
|
Em 1775 há uma nova referência.
O visitador no arcediagado de Seia, a 11 de Novembro daquele ano, ordenando
reparações na capela que estava bastante arruínada,
como se verá adiante, diz: "Constame q. a capella de Sam Pedro
de entre as moutas desta freguesia he muito antiga, e a ella concorrem
com estremada devoçam os povos destas visinhanças e indo
muntos delles com sua crus em prociçam a dita capella repetidas
vezes no ano".( Livro das Visitas, fl. 32, v.° - Arquivo da Irmandade
do SS.mo de Avô.)
Não obstante aqui haver uma certa confusão com as Ladainhas
das sextas-feiras de Maio, das freguesias de Avô, Anseriz e Pomares
de que já vamos falar, vê-se que então ainda iam bastantes,
talvez todas as não dispensadas.
A maior deserção deveria começar depois desta data,
em virtude do estado da capela. A parede norte encontrava-se arruínada,
bem como o telhado, e não se podiam lá celebrar os actos
do culto.
Quando viesse o ano de 1815, em que o visitador a interditou ( já
o anterior citado, o de 1775 , tinha declarado que o ficaria se, passados
dois meses, não fosse composta ), bem poucas seriam as freguesias,
se ainda algumas eram, que lá fossem ; e depois deste ano o abandono
foi total.
Abandono causado não somente pelo seu estado material, mas ainda
mais pela censura imposta.
Avô, quere-me parecer, já há tempo que não
ia a São Pedro na quinta-feira da semana pascal.
Num livro do arquivo daquela igreja - Titelo das obrigações
assim do Parroco, Beneficiados, Thizoureiro, como dos Parroquianos : e
dos uzos, e costumes desta Igr.a e Colegiada da Villa de Avô, escrito
em 1817, não encontrei referência a estas Ladainhas, não
obstante no Capítulo Lembranças dos uzos e costumes desta
Igr.a pelos mezes do ano - Maio, falar dos pontos terminais das procissões
das Ladainhas Menores , sendo um deles São Pedro, na terça-feira,
pelos seguintes termos :
"Nas Ladainhas gerais vão na segunda fr.a à Snr.a do
Mosteiro, na terça a S. Pedro, e na quarta ao Altar do Apostolo
S.Thiago na capella do Mosteiro, onde se dizem as preces.
Adverte-se que a capella de S.Pedro está arruínada, e suspensa,
e p.r este impedimento nesses dias que era costume ir a S. Pedro, se vai
à Capella de N.S. dos Anjos".
É a única referência que encontrei de S. Pedro ser
um dos lugares das estações das Ladainhas da Ascensão,
o que era natural.
Apesar de não ter dados alguns, estou em crer que pelo menos algumas
das igrejas filiais de Avô, também ali iriam nesses dias.
Além destas procissões na semana pascal e a de Avô
pelas Ladainhas Menores, havia outras, todas as sextas-feiras de Maio,
de Avô, Anseriz e Pomares, como diz Caetano de Sousa ( Memorias
Parochiais, loc.cit.) e o livro dos usos e costumes da Colegiada. ("Maio
- Todas as sextas-feiras Ladainhas com Missa à Capela de S.Pedro."
Seguidamente em letra diversa "achão-se mudadas p.a a Capella
da Snr.a dos Anjos."- Loc. cit. no texto um pouco anteriormente.
)
As das duas últimas freguesias teriam desaparecido com o interdito,
e as daquela outra, mudadas também para a Senhora dos Anjos, ir-se-iam
com a extinção da Colegiada.
Pelo meado daquele século, em data que me não foi possível
precisar, recompôs-se a capelita e voltaram as cruzes de Avô,
Anseriz e Pomares com as Ladainhas ; mas em lugar de ser no dia tradicional,
começaram a ir no dia das Ladainhas Menores, Ladainhas que, como
é sabido, são preceituadas pela liturgia romana.
Os visitadores do antigo arcediagado de Seia, na sua linguagem simples,
deixaram aqui e além, pelos termos de visita da Igreja de Avô,
pequenos fragmentos da litania de pobreza e abandono material que a capelita
vem arrastando desde não sei se pouco depois da sua edificação.
O de 1712, Dr. Manuel Moreira Rebêlo, Protonotário Apostólico
e Provisor do Bispado, é o primeiro a falar-nos dela :
"E porque a fabrica he tão bem obrigada a ornar a cap.a de
São Pedro ordeno se mande em tr.° de tres mezes reformar o
forro della, e os mordomos mandarão consertar as paredez do corpo
da mesma cap.a e retelhada em forma q nella não chova, e se conserterá
o Calix da Igreja pertencente à fabrica naquella parte em q está
cobrado ao q tudo se satisfará sob pena de quatro mil reis".(
Livro das Visitas da Igreja de Avô, fl.44 v.°) - Um pouco anteriormente,
em 1688, o visitador Manuel Soares de Gouveia, vigário de San-Miguel
de Coja, deixou-nos uma nota interessante de como se tratavam algumas
capelas.
"feseme
queixa q. nas Ermidas se malhava e recolhião as novidades couza
mt.° indeçente, e p.a se stranhar, pello q. mando pena de Ex.oam
e de qt.os reis p.a a confr.a do s.or que nunhua pesoa malhe, nem recolha
fructos alguns nos d.os lugares q. só forão erigidos p.a
os fieis nelles orarem, e não p.a seuirem de Eiras, e çeleiros."-(
Liv. cit., fl. 46 v.°. )
Os mordomos de São Pedro e o fabricário da capela-mor da
igreja, simplesmente não se importaram com o que ordenara o visitador,
o que era muito vulgar então e ainda hoje.
Na visita seguinte, a de 1715, o Dr. Domingos Francisco Nunes, como nada
se fizera, diz :
"Também se ordenou na passada q o forro da capella de São
Pedro a q he obrigada a fabrica da capella mor desta igreja se reformasse
ao que se não deo comprim.to antes se me fes queixa estava chovendo
no altar e por isso se não podia dizer missa nelle pello q mando
ao R.o fabricario com pena de quatro mil reis q dentro de tres meses mande
reparar o dito forro e o telhado p.a q não chova nella".
Não obstante vir, como já na anterior, a ameaça da
multa, a capela continuou como estava.
Ora, em 18 de Maio de 1717, o visitador, o mesmo da de 1715, mas então
Prior da Colegiada de São Tiago de Coimbra, encontrando-a no mesmo
estado, escreve no livro das visitas :
"Como já nas passadas fosse mandado se reparase o forro e
o telhado da cap.a de S. Pedro por estar de man.a q no altar se não
pode dizer missa por chover no altar e o Rd.o fabricario o não
mandase fazer estando a seo cargo o ei por condemnado nos tres mil reis
cominados no cap° de passada e sob a mesma em dobro lhe md.° q
dentro de tres meses md.e cumprir o d.° cap.°" (Livro citado,
fl.50 ).
O pobre prior de S. Tiago leu mal, não viu que eram quatro mil
reis o que se dizia nas duas outras visitas.
Desta vez presumo que se consertou ; só em 1774 se lhe torna a
aludir.
Este estado da capela não era somente produzido pelo desleixo.
A igreja paroquial desde alguns anos, andava em reconstrução.
Haviam-se lançado derramas pelo povo ; os rendimentos próprios
dever-se-iam consumir inteiramente ; nada restaria para se aplicar às
capelas. Isto é-nos confirmado pelo cónego da Sé
de Coimbra, João da Costa Saraiva, que em 1718 louva o zêlo
dos paroquianos de Avô, e por ver que se tinha gasto muito com ela,
dispensando-os de a mandar soalhar logo. ( Livro citado, fl. 582. )
Não se torna a falar em São Pedro senão em 1744.
Vinha em visita o Dr. Manuel Rodrigues Teixeira, Vigário de Maçãs
de D.Maria, Comissário do Santo Ofício, Juiz dos Resíduos,
Chanceler e Vigário Geral.
Foi até à capela, viu bem tudo, ordenou:
"Necessita a Capp.a do Glorioso Appostollo Sam Pedro de ser rebocada
e cayada, e também rebocado o tecto della para milhor rezistir
aos temporaiz = de se fazer hum retablo novo em que o mesmo Sancto esteja
com decencia = De hum frontal de madr.a pintado de hua banda com boas
pinturas de festa e pella outra com as proporsionadas para o tp° de
Advento e Quaresma, e de ser consertada a vestimenta de setim com estolla
e manipullo= de hum cordam de boas linhas = De trez pallas de linho bem
engomadas ; e tambem necessita o caixam dos ornam.tos de ser concertado
: a cujas despesas está obrigada a Fabrica da Capp.a mor desta
Igr.a ; e por isso md.° que o Rev. Fabricario dela no termo de trez
meses por conta da m.a Fabrica ponha em ex.am o referido mandando-o fazer
; e q°° a isto falte : o R° Parroco sob de obd.a findo o dito
tr.° de conta com o theor deste cap° a Meza da Justissa Ecclesiastica
para contra elle se proceder como pareser justo. O m.° R .° Parroco
no termo de quinze dias fará demolir os Altares que estam na dita
capp.a, de Santo Ildefonso e de N. Snr.a da Piedade v.° não
estarem ornadoz, nem haver q.m os orne ; e a Imagem de Santo Ildefonso
fará collocar no Altar do Glorioso Sâo Pedro."- (Livro
citado, fl. 73 e v.° )
Estou em crer que nada do que se ordenou nesta visita, se fez ; nem retábulo,
nem frontal, nem paramentos ( agora não tem nenhuns ). Os altares
laterais desapareceriam quando da quase ruína em que a capela esteve
e a camada de tinta que a imagem tem a deformá-la, parece-me ser
posterior.
Foi então que se começou a acentuar a sua decadência.
Algumas freguesias, como disse, foram dispensadas de ali irem com as Ladainhas,
e outras foram-se dispensando. O próprio edifício arruínava-se.
Do seu estado de miséria diz-nos claramente Inácio José
Gomes da Silva, Prior de Santa Comba Dão.
A 11 de Novembro de 1775 vai em visita a Avô, e escreve no livro
das visitas :
"Constame q. a capella de S.Pedro de entre as moutas desta freguesia
he muito antiga, e a ella concorrem com estremada devoçam os pouos
destas vesinhanças e indo muntos delles com sua crus em prociçam
a dita capella repetidas vezes no anno ; esta capella acha-se com huma
parede arruinada e por consequencia necessitada de caibrada e tilhada
para nella continuar a antiga deuoçam destes pouos e nella se celebrar
o altissimo sacrificio da missa, e como nam tem rendimento algum para
a sua reydeficaçam e esta freguesia tanto se entereça em
que presista e se nam extinga esta deuoçam, e concurso das uezinhas
e no que respeyta ao mais esta suficiente paramentada mando que o R.°°
Parocho perpondo primeyro na Igr.a ao pouo a percizam q. ha desta obra
a seu consentimento proceda com dois homens bons e de sam conciencia avaliando-se
primeyro o importe da dita obra proceda a finta e coando os mesmos repugnem
o Juis da Ig.sa requererá ao D.os Prouedor desta comarca com theor
deste Capitulo que o dito Reuerendo Parocho lhe dará para que o
mesmo retissimo menistro mande proceder à dita finta para que se
conserve a deuoçam o que se executara dentro em dois meses e coando
assim se nam execute fiqve suspensa a mesma capella e o R.° Parocho
para conduzir os santos da mesma capella para a sva Igr.a aonde os colocarão
em lugar decente o qve tudo espero faça pelo seu zello e coando
por falta de telha se nam conclua a obra da dita capella nam he minha
intenção q. neste caso fique suspensa contanto que havendo
telha nova ella se neste tempo se conclua"-( Livro das Visitas, fl.93
v.° e 94 ).
Não sei se o pároco, o juiz da igreja, ou aquele outro retissimo
menistro fizeram alguma coisa, mas presumo que não. Presumo que
ninguém se importou que, passados os dois meses dados para a compor,
ficasse suspensa ; nem o pároco também teve o incómodo
de transportar os santos para a igreja.
Em 1815 veio o interdito
"Porque as Capllas do lugar da Moura, de São Pedro e do Santo
Christo ( hoje esta capela é a de Nossa Senhora de ao Pé
da Cruz, em Anseriz ) situadas nos subúrdios desta Vlla estão
incapazes dos seus fins e de se celebrar nellas o augusto Sacrifício
da Missa tanto em razão dos estragos dos edefícios como
da falta dos Paramentos indispensáveis : ficam suspensas athe que
sejão reparadas, e paramentadas, com a devida decencia do qual
julgará o Reverendo Arsipreste do Districto". ( Livro das
Visitas, fl.111. O visitador era o R.° José da Costa e Silva,
prior e arcipreste de Nogueira do Cravo, a que Avô pertencia. Actualmente
é sede de Arciprestado. )
O livro das obrigaçôes e dos usos e costumes, em 1817, dá-a
ainda como interdita, e alguém, mais tarde, põe-lhe uma
nota dizendo o mesmo.
Continuou assim por anos.
Pelos meados do século último (XIX) , em ano que não
pude determinar, um José das Neves, de Anseriz, condoído
daquela miséria, pôs-se a pedir pelos povoados serranos para
a recompor, o que conseguiu.
Como ficou dito, voltaram as cruzes de Avô, de Anseriz e de Pomares
pelas Ladainhas Menores. E foi de ver como os de Anseriz olhavam para
os de Avô e lhe iam gritando que a capela era deles, muito deles
- eles a tinham composto. Ora os de Avô não gostaram, e vá
de começarem rixas, de pegar no São Pedro e tentar levá-lo
para a sua igreja, eles que o tinham abandonado.
Como durante alguns anos se repetissem as desordens, as justiças
de Oliveira do Hospital e de Arganil, a que pertenciam respectivamente
Avô e Anseriz, ( desde o decreto de 24 de Outubro de 1855, pois
até essa data, Anseriz pertencia ao Concelho de Avô ) tiveram
de intervir, e à face do tombo velho, agora desaparecido, declararam
ser a capela de Avô. Os daquela outra (refere--se aos de Anseriz
) ,muito dignos, voltaram costas, desceram a ladeira, e nunca mais Anseriz
voltou a S. Pedro ." ( Esta última parte, foi tirada segundo
o Rev.Padre Antonio Nogueira Gonçalves, de "Alma Nova"
- vol.III, n° 25-30. Lisboa, 1925 ).
Nota complementar :
O abandono destas capelas prolongou-se por muitos anos, devido a alguns
factores, como sejam o aparecimento em 1820 do Liberalismo e as lutas
prolongadas entre liberais e conservadores. Depois também as lutas
fratricidas, repletas de terror e de sangue , de que a nossa região
foi palco ( lutas entre os apoiantes do famoso João Brandão,
de Midões, dos Pintos , de Seia ,etc. ).
Depois em 1855 acaba o Concelho de Avô e Anseriz separa-se deste,
a que esteve sempre ligada e entrou no Concelho de Arganil. Com esta separação,
o povo de Anseriz, encontrou coragem para recompor a capela do Santo Cristo.
Como o Papa Pio IX, em 1854, tinha implantado na Igreja o Dogma da Imaculada
Conceição e o culto a Maria se tornou ainda maior em Portugal,
alterou-se o nome desta Capela para Nossa Senhora de ao Pé da Cruz.
Restituída esta capela à sua dignidade, o povo de Anseriz,
orientado pelo bom cristão e cidadão José das Neves,
através dum peditorio regional, consegue restaurar também
a Capela do Glorioso São Pedro. A decisão do Tribunal feriu
o orgulho dos Anserizenses e esta mágoa ficou sempre. Até
que, no início da década de 1930, alguns jovens anserizenses
concretizaram o que muitos pensaram e nunca conseguiram fazer : roubaram
a imagem de S. Pedro e trouxeram-na para Anseriz.
Referente a este roubo, eis o que a "Comarca de Arganil" relatou
a 19 de Setembro de 1933: " Avô-18. Hoje demanhã, uns
trabalhadores que andavam ao serviço do sr. Padre António
Fernandes Jorge, passando junto da Capela de São Pedro, viram a
porta aberta e a imagem de São Pedro tinha desaparecido. Os sinos
tocaram a rebate e é grande a consternação em todo
o povo." Dias depois, o mesmo jornal noticiava: " Avô-27.
Apareceu já a imagemde São Pedro, que havia sido roubada.A
imagem, que é muito pesada, foi encontrada na passada quinta-feira,
por uma mulher, no sítio da Cruz de Pomares. A imagem veio para
a Igreja de Avô e no dia de São Miguel organizou-se uma procissão
para a sua capela."
No jornal, A Comarca de Arganil, do dia 27 de Setembro de 1933 o correspondente
de Avô, senhor M.S.da Fonseca escreve : " A imagem de S.Pedro,
que, como este jornal noticiou, havia sido roubada da sua capela, no dia
17, o que causou grande indignação ao povo avoense, apareceu
no dia 21 na Cruz de Pomares e Anseriz. Houve certamente o intuito de
incriminar os pomarenses, mas o povo de Avô não atribui a
estes a proeza.
O caso está entregue às autoridades, esperando-se que tudo
se esclarecerá em breve ".
O certo é que nada se esclareceu e o segredo deste desvio manteve-se
bem guardado até aos nossos dias. Hoje, sabemos que os actores
deste roubo foram três jovens de Anseriz, bem conhecidos pelas suas
brincadeiras e atrevimentos : José Alves Júnior,( neto do
José Alves, que havia restaurado a capela ) José dos Santos
Camilo ( conhecido por Angelino ) e João Caetano ( já todos
falecidos ).
Tudo começou na feira de Avô, do mês de Agosto desse
ano, em que no regresso da feira, já na calçada de Anseriz,
se discutiu a pertença da imagem de São Pedro . Então,
estes jovens decidiram passar a acção. De noite, roubaram
a imagem do Glorioso Apóstolo e trouxeram-a para Anseriz, escondendo-o
num palheiro das Eiras. O escândalo rebentou, os jornais regionais
noticiaram o acontecimento e a guarda pôs-se em campo. A povoação
de Anseriz era a visada. Os jovens, com receio que o Santo fosse descoberto,
resolveram atá-lo a uma corda e lançá-lo no fundo
do poço do quintal do José Alves ( pai ), às Eiras.
Como as investigações continuassem e se tornavam perigosas
para os jovens, estes decidiram tirar o S.Pedro do banho, do fundo do
poço e levá-lo para junto do Cruzeiro do Ferreiro, à
Cruz de Pomares, por onde diariamente passavam pessoas. No dia seguinte,
a imagem do Santo foi encontrada dentro duma cesta, e ao lado do São
Pedro estava uma broa, um queijo e uma garrafa de vinho. O alarme foi
dado, a imagem voltou à capela e houve alegria, procissão
de desagravo à Capela de São Pedro e grande festa em Avô
.
A partir desta data, a capela começou a ficar bem segura e segundo
o Prof. Jerónimo Sanches Pinto, em 1944 " foi comprada uma
linda imagem em madeira, para ser transportada nas procissões e
estar sempre na capela, mas conservamos religiosamente a antiga, feita
em pedra e de incontestável valor artístico, pela sua antiguidade".
A Capela e o recinto, graças ao dinamismo duma Comissão,
foram aranjados e no dia 30 de Abril de 1995 foram inauguradas as obras
de restauro: à volta do santuário muitas árvores
e flores foram plantadas,foi feito um grande recinto em cimento, com um
palco atrás e ao lado um bar coberto, com um forno e churrasqueira
ao lado, assim como mesas no pinhal. Abriu-se também um caminho
para dar maior relevo à procissâo. É de referir que
anos antes foi construído um altar de granito, ao ar livre, do
lado poente da capela, para celebração de missas campais,
pois a capela era pequena para tantos peregrinos. Todos os anos a festa
do dia 29 de Junho se tem feito com grande religiosidade e animação
no próprio local.
Aqui fica um pouco, da rica história deste Santuário, que
merece todo o nosso respeito e que turisticamente é um local belíssimo,
para ser visitado e apreciado, devendo constar dos roteiros turísticos
do nosso maravilhoso e poético rio Alva e da nossa montanha verde
e saudável, que é a Serra do Açor.
Manuel
da Silva Fernandes - Setembro de 2002
|