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I
TOPONÍMIA
Anser -
Anserici - Anserizi - Ancerize - Anseriz. Terminação etimológica
que evoluiu de forma normal.
Patronímico oriundo do genitivo latino que se usou na Idade Média
(ici) e que se acrescentava ao nome pai: isto é, Anserici seria
filho de Anser, mome de origem germânica.
Mais exemplos: Menendus, filho de Ferdinandus, dizia-se Menendus Fernandici
ou Menendo Fernandes; Bernardes, filho de Bernardo; Henriques, filho de
Henrique ( caso do nosso 1º Rei); Álvares, filho de Álvaro
( caso do Condestável ) ; Dias, filho de Dídaco, etc.
Só depois do século XVI é que se nos depara esta
grafia com o "c", época em que na linguagem literária
os dois sons "c" e "s" se tornam idênticos !
Corrente literária essa que nos é trazida pelos clássicos
dessa época, nomeadamente, entre nós, Gil Vicente, Bernardim
Ribeiro, João de Barros, Rodrigues Lobo, entre outros.
De passagem pelo concelho de Braga, já há alguns anos (1977),
encontrámos em determinado cruzamento de estradas, uma tabuleta
de trânsito que nos indicava o sentido da povoação
Ançariz.
Não nos deslocámos lá, mas segundo testemunho de
algumas pessoas escutado em Braga, trata-se de uma terra muito antiga,
supondo-se fundada no referido século VI da nossa era.
Segundo as regras da actual Gramática Portuguesa o topónimo
Anseriz-Anceriz, deve escrever-se com "s", porque está
seguida da consoante "n" e antes da vogal "e".
Salvo melhor esclarecimento, é nossa convicção, que
Anseriz se deve escrever com um "s" e no final sempre com um
"z".
II
DOAÇÃO
Anseriz
entrou no termo do Castelo de Avô, e, com este concelho, foi da
Sé de Coimbra desde os inícios da Nacionalidade - ano 1258
- razão porque de Anseriz afirma o Padre Luís Cardoso em
1747:"Logar na província da Baixa, bispado de Coimbra arcediago
de Ceia, Comarca da cidade da Guarda". E continua: "é
terra dos Bispos de Coimbra, d´onde lhe pagam jugadas e fóros,
porém as justiças ( em Avô ) são postas por
el-rei". Tendo senhorialmente, Anseriz as vicissitudes de Avô,
visto estar integrada nesta vila, conclui-se que era Couto de D. Afonso
Henriques e pertencia a D.Urraca Afonso, filha bastarda deste rei.
Esta doação foi feita no mês de Janeiro de 1185 e
diz o seguinte: " Iccirco ego Affonsus Dei gratia Portugalensium
rex una cum filio meo rege dommo Sancio facio cartam donnationis et perpetue
firmitudinis vobis filie mee domne Urrace per ille Villa que vocatur Avoo..."
Traduzindo para o português actual teremos: " Por esta razão,
eu Afonso, rei de Portugal, pela graça de Deus, juntamente com
o meu filho, rei D.Sancho, faço-vos, ó minha filha D. Urraca,
a carta de doação e de duração perpétua
daquela vila, que se chama Avô".
Como ( do administrativo concelho de Avô até à sua
extinção em 24/X/1855) Anseriz foi da paróquia de
Santa Maria de Avô e erigiu-se, dentro desta em Freguesia, por si,
depois do século XIV. Assim sendo, Anseriz é uma das freguesias
mais antigas da região! E também, por aqui podemos concluir
que Anseriz e Avô, possuem uma história comum até
à referida extinção do concelho de Avô, que
por força dessa extinção Anseriz passou para a comarca
de Arganil e Avô para a comarca de Oliveira do Hospital. História
comum que foi facilitada devido à proximidade muito curta e altamente
beneficiada que lhes era oferecida pela calçada romana!
Foram duas freguesias - embora com categorias diferentes - que sempre
andaram de mãos dadas e que ao longo dos séculos sempre
se entreajudaram e completaram, se tivermos em linha de conta que vários
foram os alcaides-mor e capitães-mor do Castelo de Avô e
seu termo, bem como muitas figuras da Igreja que presidiram a essas duas
paróquias, umas vezes naturais de uma ou de outra, intercâmbio
esse que chegou até aos nossos dias com os irmãos padres
José e António.
Igualmente, no dia 29 de Setembro de 1911 o "comité"
revolucionário chefiado por Henrique Meneses Parreira, Gastão
Soares de Albergaria, Eduardo Augusto Ferreira dos Santos e outros que
restauraram solenemente a Monarquia, içando a Bandeira Azul e Branca
nos antigos Paços do Concelho, destituindo dos seus cargos as autoridades
republicanas e lavrando o respectivo Auto de Restauração,
lá estão mencionados os nomes de José Madeira Lobo
(fidalgo descendente das famílias Garcia de Mascarenhas, dos Albuquerques
da Beira e de Álvaro Afonso casado com D. Maria Madeira), José
Alves das Neves, seu filho Idalino Alves Rodrigues e tantos outros anserizenses
que igualmente tiveram que abandonar suas casas e esconderem-se por várias
partes da Serra do Açor, tal como os citados avoenses.
Mas para além de tudo isto, também a Filarmónica
sempre albergou, e desde a sua fundação, no seu conjunto
dezenas de filarmónicos igualmente até aos nossos dias.
Finalmente não esquecendo os milhares de casamentos entre anserizenses
e avoenses, que ao longo dos séculos entrelaçaram todas
as classes sociais formando e fortalecendo uma simbiose perfeita entre
as duas comunidades vivas.
População embebida e enraizada no culto divino e cristão,
desde a sua fundação, e mais tarde cultivada na catequese
apoiada na Igreja Matriz e na fundação de quatro capelas
dedicadas a Santo Ildefonso, São Sebastião (já desaparecidas),
Santo António e Senhora de ao Pé-da-Cruz, constituem os
lugares de conforto espiritual dessa mesma população.
Ainda hoje essa tradição está bem viva, se reconhecermos
que todos os anos, no 3º domingo de Agosto, em época alta
das férias, centenas de naturais vindos de todo o país e
até do estrangeiro, aqui se dirigem para se incorporarem nessa
procissão precedida de banda de música, pálio, Irmandade
de Nossa Senhora de ao Pé-da-Cruz, e cerca de dezena e meia de
andores que constitui uma das maiores procissões católicas
da região. Momento alto dos festejos anuais e uma extraordinária
profissão de fé religiosa cristã.
III
ALGUMA COISA DO PRESENTE
Freguesia
de raízes históricas relevantes, lugar privilegiado, dada
a aproximação ( 2 Kms.) e da facilidade de trânsito
pela estrada romana das terras vizinhas, principalmente, a vila de Avô
que sempre foi terra importante na indústria e no comércio
e com a qual eram feitas as suas trocas comerciais.
Aqui se erguem várias casas quinhentistas, com janelas e portas
manuelinas, outrora a ocuparem lugar de destaque e a revelarem a presença
de famílias ricas e importantes na política e na igreja.
Entre estas sobressaem a família dos Costas e dos Madeiras, tendo
como figuras principais:
- João Manuel da Fonseca, capitão-mor de Avô, casado
com D. Maria Madeira da Costa, que foram os pais de D. Maria Fonseca da
Costa que casou em 19 de Fevereiro de 1645, na vila de Avô, com
Brás Garcia de Mascarenhas, poeta-guerreiro, autor do poema épico,
Viriato Trágico.
- D. Afonso Gaspar da Costa, filho de Álvaro Afonso e de D. Maria
Madeira. Nasceu em Anseriz em 1626, onde também foi baptizado.
Já como Missionário partiu em 1647 (21 anos), para terras
do Oriente com outros companheiros da companhia de Jesus. Foi superior
no Seminário de Goa. Em 1675 foi a Roma, voltou à Pátria
e regressou novamente Índia em 1677 com vários missionários
portugueses, alguns mesmo desta região, Foi confirmado e nomeado
Bispo em 1691 e sagrado Bispo de Goa no ano de 1693. Mais tarde depois
de percorrer as partes do Oriente, foi nomeado Bispo de São Tomé
de Meliapor nas Índias Orientais, onde faleceu a 24 de Novembro
de 1708.
Verificamos que muitas dessas casas e que outrora, como dissemos, ocuparam
lugar de destaque, se encontram hoje muito descaracterizadas, subsistindo
em algumas delas a traça antiga. Anseriz sempre foi de características
muito relacionadas com a agricultura. As propriedades nesta Freguesia
estiveram sempre bem partilhadas, pois a quase totalidade das famílias
tiveram sempre casa própria e o seu pedaço de terra para
cultivar. A terra pertencia a modestos agricultores e a algumas famílias
ilustres em especial nos séculos XVII e XVIII. Campos antigamente
agrestes, ontem férteis e hoje a começarem a ficar abandonados,
entregues aos matos bravios e às silvas e principalmente aos nefastos
eucaliptos ( um erro histórico de plantio ).
As parcas riquezas desta terra eram o milho, o feijão, o centeio,
a castanha, a fruta, o vinho e o azeite principalmente ( é bom
não esquecer que Anseriz foi e é ainda uma das terras principais
produtoras de azeite na região do Vale do Alva. São esses
olivais o mais belo conteúdo de seus ornatos e glórias suburbanas.
Aqueles troncos velhos e coroados de verdura, com seus caminhos estreitos
e labirínticos - que tão bem conhecemos - cuja riqueza e
formosura proverbial é uma das nossas crenças populares
mais gerais e mais queridas!
Afiguram-se-nos como selvas encantadas e venerandas imagens de nossos
passados! Estragados como tantos, profanadas como todos os olivais ainda
são um monumento!
Estes campos agrícolas foram conquistados à força
de trabalho e obstinação, de rigorosas e severas economias,
divididos pela partilha à morte dos pais e acrescidos pelos casamentos
dos filhos. Percorrendo os seus caminhos já não ouvimos
a chiadeira dos carros de bois, nem as campainhas e chocalhos dos rebanhos,
apascentando nos prados ou nos caminhos, assim como também não
se ouvem os cânticos ao desafio ou das lavadeiras lavando roupa
nos ribeiros! Apenas aquém ou além o chilreio de um passarinho
ou grito de uma ave mais corpulenta entrecortando o "assobio"
do vento nas sesmarias ou som turbulento das quedas de água.
IV
PREVISÕES QUANTO AO FUTURO
Sintetizamos
em curtas e breves linhas uma resenha sobre a história, passado
e presente de Anseriz. Mas agora surge a pergunta dos leitores, especialmente
Anserizenses: Quais as perspectivas de futuro? ... Poderá Anseriz
continuar a viver da sua tradicional riqueza do passado, apoiada na sua
agricultura de subsistência, na produção cada vez
menor de cereais, frutas e legumes? Pensamos que não!
Anseriz tem que acompanhar a senda do progresso e a evolução
dos tempos que correm, embora sem perder de vista e sem esquecer aquilo
que a caracterizou sempre: uma casa para cada um viver e um pedaço
de terra para o cultivo dos seus legumes.
Os problemas de Anseriz, são comuns a muitas outras terras da nossa
região: A falta de indústria, comércio e serviços
de modo a fixar as populações assegurando-lhes um nível
de vida que faça desistir da ideia, aos seus naturais, da necessidade
de imigra à procura de vida melhor.
Cabe aos Governos, às autoridades autárquicas - aqueles
que detêm o poder - a determinação de "puxarem"
para as aldeias o apoio às infraestruturas locais, como sejam a
educação e a saúde, a segurança social, os
transportes e as comunicações, a criação de
novos postos de trabalho!. Modificando a produção e o cultivo
das terras de modo a que esses produtos sejam de boa qualidade e facilitando
as trocas comerciais.
Não é abandonando essas terras, fazer por esquecer os problemas
e suas soluções, fechando as escolas e os serviços
de saúde, recusando-lhe a construção e a manutenção
dos centros sociais e de convívio, retirando-lhe carreiras de camionetas
de serviço público de passageiros, anulando o investimento,
que se pode chegar à fixação das populações,
dando-lhe e oferecendo-lhe melhor qualidade de vida!
Esta antiquíssima terra beirã não pode nem deve baixar
ao nível das condições de insignificante e desvalorizada
aldeia. Não pode supor-se uma terra "moribunda", mas
bem pelo contrário, uma terra pujante de seiva e vitalidade, ansiosa,
que os autarcas esclarecidos sobre ela se debrucem e atentem no seu progresso!
Os jovens de Anseriz precisam de estímulos, recusam-se a estar
predispostos para o tédio ou pouco mais; têm ideias, planos,
certezas. Estão conscientes de que só com o desempenho de
todos possam ter o progresso desejado.
Os desejos e a necessidade de progresso que outrora marcaram época,
grandiosa e brilhante, aquilo que constituiu o chamado Regionalismo, custeado
pelas populações, que consistia na inauguração
de um fontanário, arranjo de uma calçada, a colocação
de telefone, etc.. Presentemente esses desejos e as necessidades são
mais vastas: são de progresso social e económico, de bem-estar
e ambientais, que têm tudo a haver na generalidade com os desejos
e necessidades das populações!
Sabemos que pelas variadas e justificadas razões a hora é
difícil, as verbas de investimento escassas, quase nulas e os apoios
inexistentes; mas se houver, boa gestão desses recursos, mobilizando
e envolvendo autarcas competentes e trabalhadores e as populações,
muitas resoluções se podem transpor! Chegam-nos notícias
que indicam a chegada de verbas para a requalificação de
várias aldeias históricas perdidas e abandonadas na Serra
do Açor. Achamos a ideia justa e importante! Mas também
achamos justa e importante a ideia de que devem vir quanto antes verbas
e somas de dinheiro para as aldeias em risco de igualmente se virem a
tornar aldeias perdidas e abandonadas na mesma Serra, enquanto ainda mantêm
e albergam populações vivas e actuantes.
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Nota:
Esta série de três artigos foram publicados pelo autor
- sr. José de Brito - no "Jornal de Arganil" no mês
de Maio de 2003 e quisemos incluí-los na "Monografia de
Anseriz", já que se trata de bons artigos dum conterrâneo
que conhece e ama a sua terra. A nossa gratidão. |
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